_Como se faz pra entrar num torneio, levar os dois troféus disputados e, de quebra, ganhar uma quadra de graça e em horário nobre?
Niltão responde:_Isso é mole, uai... nóis é Dínamo, passa o meu copo que, já era.
Pouco antes do apogeu do escrete feminino, logo após a fusão com as meninas da COHAB Educandário, chegou forte a febre do futebol societ em todo Brasil, fomos convidados para alguns torneios e, simplesmente levamos todos.
Corríamos por todos os cantos de São Paulo, como ciganos, não tínhamos uma casa, um local que pudéssemos convidar os adversários pra uma boa peleja.
Os outros três melhores times de futebol de campo da região haviam se extinguido e, o que sobrou desses times (Associação da Raposo, Atlético do Educandário, Palmeirinha do João XXIII) agora pertenciam ao emergente Dínamo e por não haver adversários por perto, tínhamos que viajar.
Meu amigo João, mantinha uma quadra de areia na Flamengo, uma beleza de quadra mesmo, sem que ninguém tomasse conhecimento, me chamou pra umas brêjas e, pra meu espanto, me contou uma história triste.
Disse que havia firmado um acordo, de boca, com umas meninas do São Jorge e a coisa não virava... trocando em miúdos, as garotas não jogavam e não traziam público, com isso a parte dele não vinha.
O plano dele era que, o Dínamo entrasse de sola e tomasse o local de assalto, disse que havia construído uma quadra pra ganhar dinheiro vendendo muita cerveja.
A essa altura eu já havia secado umas duas garrafas e, é claro que não pagaria.
_Caro amigo João, prepare dois troféus bonitos e me espere dois times daqui contra dois times do Dínamo, um jogo no sábado e a final no domingo... quem vencer fica com a quadra.
_E se houver empate, se seu time perder?
_Tá maluco João?Aqui é o Dínamo... aproveita que você levantou e traz mais duas, esse papo de conspiração me deu sede.
Reuni as garotas e dividi o time, algumas não gostaram da forma da divisão e eu fiz que não percebi, democracia nunca foi o meu forte, times democráticos são times de brinquedo.
No primeiro time foi formado pelas moças da Osvaldão e algumas oriundas da COHAB Educandário:.Angela, Arlete, Adriana, Cacilda, Mazé, Alessandra, Gisele e Cris.
O Segundo time foi composto pelas meninas do João XXIII e as da COAHB Raposo... Camila, Viviane Rincón, Mirna, Sandra, Luciléia e Edcléia e Rosemeire.
No papel, fica a impressão de que o primeiro time ficou mais forte, houve contestações, mas eu sabia o que tinha nas mãos, fiquei calmo e sabia que ia ganhar os dois troféus.
Quando chegamos à quadra no sábado, ela estava lotada, passei pelo João e ele estava rindo à toa:
_Aqui é Dínamo.
E como dessa vez, eu estava ali a serviço, nem cheguei perto do balcão.
A intragável Juliana me recebeu e disse que seu melhor time ia jogar primeiro, jogou com o primeiro quadro e passaram vergonha de tomar um piau de 4 a 0. Pro dia seguinte poderia perder pelo mesmo placar e levaria o troféu.
No segundo jogo aconteceu o que eu já havia previsto, as meninas acreditaram que eram mais fracas e foram pra quadra acreditando nisso... Ora, efetivamente, você é o que acredita ser.
E não deu outra, tomaram a goleada de 4 a 0, a vantagem ficou pro time da casa, que poderia perder pelo mesmo placar.
Fiquei calado, vi as meninas da casa se contentarem com a possibilidade de perder um troféu e levar o outro, sorri antecipado, o prazer que eu ia ter, de tirar o doce da boca da criança.
O João se encostou e se mostrou preocupado, lancei-lhe um olhar ausente, mais tarde ele iria descobrir que tenho dupla personalidade, aquele, que no dia anterior, bebera em sua companhia era o diretor, esse agora era o técnico, simplesmente coloquei a palma da mão no ombro dele e disse:
_Diz pras meninas do segundo quadro que o meu time não vem amanhã, elas que venham só pra pegar o troféu.
O João sorriu e entrou no jogo, durante o caminho da volta ia metade das meninas felizes pela conquista e a outra metade triste, na verdade, elas estavam em silêncio por medo de mim, pra piorar as coisas eu não disse nada a elas, só me dirigi ao Alex, meu auxiliar e fiel escudeiro.
Quando chegamos à minha casa, me despedi das meninas do primeiro quadro, as meninas do segundo quadro não estavam dispensadas, levei-as pro morrão e passei-lhes a mais horrível das descomposturas, o Alemão trouxe uma bola pequena de borracha, só sairíamos dali quando eu pudesse ver um time de verdade, nesse dia, elas conheceram a extensão da minha ira, uns fregueses do bar do Carlão foram até lá, pensaram que alguém estivesse sendo mutilado, os meninos do infantil formaram um time e jogavam contra elas, do alto das pedras eu gritava a cada segundo.
Uma garoa precipitou, algumas meninas me procuraram com os olhares de vítimas, os meninos riam de tudo.
_Ninguém sai, se alguém sair é pra sempre.
A minha ira era tal, que a garoa virou chuva, a chuva virou tempestade.
Os raios chicoteavam no céu e eu gritava mais alto, a água que as molhava também me molhava e os meninos riam ainda, pouco a pouco elas foram entendendo o significado daquilo tudo, quando anoiteceu, saíram todas rindo, no escuro e cheias de barro, era difícil distingui-las dos meninos.
No dia seguinte, as meninas da casa. se surpreenderam ao vê-las chegando e até riram daquele time que havia sido goleado no dia anterior.
E, pra espanto da grande torcida, esse time que precisava de quatro gols, ganhou com o placar de oito.
Não estava só feliz, o João, estava bêbado mesmo:
_Eu não acredito no que acabo de ver com meus próprios olhos.
Já calmo, ameaço de falar algo, ele levanta a mão e diz:
_Já sei... AQUI É DÍNAMO.
segunda-feira, 18 de julho de 2016
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